sábado, julho 08, 2006

Miracolo

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Ricardo Stabolito Junior

Se a Itália ostentava algum favoritismo para essa Copa, devia-se em muito (muito mesmo) ao peso de sua camisa. Com atuações fracas e sem energia, a Itália trilhou seu caminho até o Mundial da Alemanha levando consigo descrença e desânimo. Poucos eram aqueles que acreditavam numa Itália finalista, como se confirmou ontem.

A torcida italiana passava por uma fase de profunda depressão. A eliminação da Copa de 2002 nas oitavas-de-final contra a Coréia do Sul, tendo sido prejudicada por uma das piores arbitragens da história das Copas, e a descoberta do escândalo da compra de resultados no “Calcio” fizeram com que o torcedor praticamente “jogasse a toalha” antes mesmo do Mundial se iniciar.

A seleção italiana, mesmo encarando um dos grupos mais tranqüilos das eliminatórias européias (com Noruega, Bielorrússia, Moldávia, Eslováquia e Escócia), conseguiu se complicar em alguns jogos, como na derrota para os eslovacos ou na vitória sofrida contra os bielo-russos em casa por 4 a 3. No entanto, conseguiu se classificar com razoável folga no grupo, cinco pontos à frente dos noruegueses.

Nos amistosos de preparação, as atuações sem energia imperaram. O futebol italiano sempre foi estigmatizado como feio e pragmático, com foco no sistema defensivo e contando com o talento individual de seus atacantes. E, na preparação para essa Copa, o quadro parecia se repetir. Por ironia do destino, o único amistoso em que os italianos mostraram um futebol convincente foi contra a Alemanha, adversário da semifinal, goleando por 4 a 1.

A descrença do torcedor continuou com a convocação do técnico Marcelo Lippi. Muitos jogadores de times pequenos do campeonato nacional foram convocados. O Palermo, por exemplo, cedeu 4 jogadores. Além disso, muitos dos atletas convocados constituíam mais uma aposta arriscada do treinador do que uma certeza, caso de Gattuso, Materazzi, Zaccardo e De Rossi. A verdade é que a única certeza que os italianos tinham era quais eram seus adversários na primeira fase: República Tcheca, Gana e Estados Unidos – para muitos um possível segundo grupo da morte.

Complicava ainda mais o fato de os principais jogadores da seleção italiana já estarem próximos ou com mais de 30 anos de idade, sofrendo com problemas físicos e suscitando desconfiança entre os torcedores. Inclusos nesse grupo estão Cannavaro, Nesta, Del Piero e Totti (que quase ficou fora da Copa por causa de uma grave contusão).

Outro fator que poderia prejudicar a campanha da Itália era a indecisão do técnico Lippi. Desde que assumiu a Azurra, a não-repetição de escalações e mudanças de esquema tático sempre o marcaram. Durante os treinamentos pré-Copa, Lippi treinou o time em uma infinidade de formações, mas a imprensa italiana sabia que aquele comportamento muito mais se devia à indecisão do treinador do que pela versatilidade do elenco.

Na primeira fase, a Itália passou em primeiro lugar no seu grupo com sete pontos. Apesar de a chave ser complicada, a esquadra Azurra mostrou segurança e tranqüilidade na maioria do tempo. Com uma retaguarda bem postada e o goleiro Buffon em grande fase, os italianos sofreram um único gol (contra, por sinal). No entanto, a seleção teve duas baixas: Totti, jogando mal e pouco inspirado, foi para o banco e De Rossi, após uma cotovelada criminosa no atacante norte-americano McBride, foi expulso e suspenso por 4 jogos.

De Rossi era uma das apostas arriscadas de Lippi. O volante da Roma, apesar de ser bastante eficiente, é conhecido por ser violento e se exaltar facilmente. Para substituí-lo, Lippi passou a escalar outro jogador do grupo das “apostas arriscadas”: Gattuso. O volante do Milan é conhecido pelo seu jeito esquentado e briguento, mas consegue conferir ao time em que joga algo que a seleção italiana, apesar da boa campanha, ainda não mostrava – energia.

Nas oitavas-de-final, a Itália encarou a retranca eficiente dos australianos. Jogando com pouquíssima criatividade e dez jogadores o segundo tempo inteiro, o time esteve seriamente ameaçado pela desclassificação. Quando os australianos acertavam a mira (poucas vezes), Buffon estava lá. Já nos descontos, em uma ótima jogada individual de Fabio Grosso, a Itália conseguiu um pênalti duvidoso, convertido por Totti.

Contra a Ucrânia, nas quartas-de-final, o time fez um primeiro tempo muito bom, saindo com a vantagem de 1 a 0. No início do segundo tempo, sofreram forte pressão dos ucranianos, barrados novamente pelo inspirado Buffon. No contra-ataque, o artilheiro Luca Toni fez mais dois gols, selando a vitória italiana.

Contra os alemães, a Itália fez um jogo interessante. Com o retorno de Totti ao time titular, os italianos ganharam criatividade, mas continuaram pecando pela lentidão. Já os alemães mostraram bastante velocidade na saída para o ataque, mas faltava criatividade. No segundo tempo, a diferença entre os times se acentuou ainda mais – Itália tentando ficar mais tempo com a bola e esgotada fisicamente enfrentava a Alemanha muito rápida na subida ao ataque, mas muito mais displicente com a posse da bola. No final, um jogo que parecia destinado aos pênaltis foi decidido em um ótimo passe de Pirlo e em um chute ainda melhor de Fabio Grosso. Nos descontos da prorrogação, Del Piero ainda fez um segundo gol em um passe calmo e inteligente de Totti.

A Itália é um exemplo de um time que evoluiu na fase final, desde o jogo fraco contra os australianos até a atuação segura contra os alemães. Quem previu em algum bolão ou bolsa de apostas que a Itália seria finalista, deve ter ganhado um bom dinheiro, pois a maioria das análises antes e durante a Copa sobre a esquadra Azurra circulava por dois aspectos: a força de sua camisa e a fragilidade de seu time.

O fato de ter a melhor defesa dentre as seleções semifinalistas, tendo levado um único gol, rende elogios ao setor, que sempre é destaque dos italianos. Na falta de Nesta, machucado, a dupla que vem jogando é Cannavaro e Materazzi. O goleiro Buffon mostra a segurança de sempre em atuações brilhantes. Outro destaque é o lateral Fabio Grosso, que defende e apóia com segurança e propriedade, impondo velocidade rara aos ataques italianos.

Lippi parece ter se decidido quanto à formação do time. Ele vem jogando com duas linhas de quatro jogadores, Totti a frente da segunda linha armando para Luca Toni que joga isolado na frente. Mais do que isso, Lippi conseguiu a aprovação entre os torcedores e especialistas italianos, que eram em maioria descrentes quanto ao trabalho do treinador.

O que se conclui com a chegada na final dos italianos é que esse time venceu muito mais do que seus adversários nessa Copa. A Itália venceu também a desconfiança, descrença do torcedor, dificuldades técnicas e indecisões com um time mediano – um verdadeiro miracolo!


França finalista

A França fará a final da Copa do Mundo contra os italianos. Os franceses venceram por 1 a 0 Portugal, gol de pênalti de Zidane. Embora tenha feito o gol, Zizou foi bem marcado e fez apenas um bom jogo, brilhando em algumas oportunidades. Os destaques dessa vez foram a linha defensiva francesa – Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal – que se apresentaram com segurança e encobriram quase totalmente as falhas proporcionadas pelo veterano goleiro Fabien Barthez, e o volante Patrick Vieira, que novamente fez um grande jogo, se firmando como o mais constante jogador da seleção francesa na Copa.

Portugal, por sua vez, mostrou uma de suas limitações: a falta de poder de fogo. Nenhuma das substituições do técnico brasileiro Luís Felipe Scolari para avançar o time conseguiram surtir efeito e proporcionar grande perigo aos franceses. O único que conseguia ser, esporadicamente, bem sucedido era Cristiano Ronaldo, apesar de suas peripécias. No sábado, os portugueses enfrentam a anfitriã Alemanha na disputa pelo terceiro lugar do Mundial.

quinta-feira, julho 06, 2006

A final

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Renato Bosi de Magalhães

Antes de começar a Copa do Mundo na Alemanha, a mídia esportiva apontava como favoritos ao título Brasil, Alemanha e Inglaterra. Alguns comentaristas citavam a Itália. A Azzurra entrava nesse rol mais pela tradição do que pelo futebol que vinha apresentando. Agravava mais a sua situação o escândalo das arbitragens que o país da bota vem passando, e que pode rebaixar times como Milan e Juventus. Pois bem, a Itália está na final.

A defesa comandada por Buffon e Cannavaro só tomou um gol. E não foi nenhum adversário que o fez, mas sim ela própria. No empate contra os Estados Unidos, o lateral Zaccardo marcou contra. Merecem destaque também os volantes Gattuso e Pirlo. O primeiro vem demonstrando a raça de sempre, com a vantagem de chegar sempre na bola e não no jogador, como às vezes acontece no seu time – o Milan. Já o segundo está sendo o grande armador da seleção italiana, posição que se esperava ser ocupada por Totti ou por Del Piero. A maioria dos gols italianos nesse Mundial passa por Pirlo. É de se destacar também o bom jogo coletivo da equipe comandada por Marcello Lippi. Dos onze gols marcados – melhor ataque, ao lado da Alemanha – apenas o atacante Toni marcou mais de um (dois). O restante foi convertido por jogadores diferentes.

Se a Itália não era considerada como uma das favoritas, menos ainda é seu adversário na final - a França. A equipe de Zidane começou muito mal a Copa do Mundo, empatando com Suíça e Coréia do Sul. A vitória sobre Togo por 2 a 0, com grande atuação de Vieira, levou o time às oitavas-de-final. A partir daí Henry e Zidane, que vinham apagados na competição, começaram a desequilibrar. Eu vinha sempre escrevendo que Trezeguet merecia uma vaga nesse time. Agora não sei mais. O esquema de cinco jogadores no meio está funcionando muito bem. Malouda e Ribery podem não se destacar com belíssimas jogadas individuais, mas são de suma importância taticamente. Eles sempre saem substituídos, pois as funções que eles exercem são muito cansativas. Eles devem marcar os laterais e ainda ajudar Zidane e Henry lá na frente.

E, por último, longe de ser menos importante, os zagueiros Thuram e Gallas e os volantes Makelele e Vieira, que fazem um Mundial impecável. Sobraram três titulares: Barthez e os laterais Sagnol e Abidal. Não gosto muito do goleiro francês. Ele não demonstra muita segurança, principalmente nas bolas chutadas de fora da área. Quanto aos laterais, são razoáveis defensivamente e fracos no apoio ao ataque. Enfim, nessa final Itália x França, não aponto um grande favorito, mas acredito que a seleção italiana vem com um pouco mais de força depois da vitória sobre os donos da casa.

E quem será o craque da Copa? Zidane? Cannavaro? Vieira? Buffon? Façam as suas apostas.

terça-feira, julho 04, 2006

Síndrome de Maradona

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Henrique Moretti

E a Argentina caiu de novo em Mundiais. E de novo caiu cedo, antes das semifinais. Para “los hermanos”, a mesma história se repete desde a Copa de 90, na Itália, quando, contando com Maradona (e principalmente naquele Mundial, com o “tapa-penales” Goycoechea), chegaram à final. Mesmo sem jogar bem, é verdade, mas chegaram.

A partir da competição em solo italiano a sorte argentina não é mais a mesma. Em 1994, obtiveram a classificação apenas na repescagem, contra a Austrália (com direito a derrota por 5x0 ante a Colômbia, nas Eliminatórias). Assim mesmo, estrearam com a banca toda contra a Grécia, num 4x0 com bom futebol e que marcaria o último gol de Diego Maradona com a camisa albiceleste. Como todos sabem, Dieguito caiu ao ser pego no dopping e a seleção também não resistiu, quando nas oitavas nem os gols de Batistuta adiantaram para parar a Romênia, de Hagi: 3x2.

Para o Mundial da França, de 98, a Argentina tinha um timaço. Verón, Ortega e Batistuta estavam no auge da forma. Redondo era outro que estava, considerado o melhor volante do mundo na época, mas o ex-atleta do Real Madrid ficou de fora da Copa por não se sujeitar às regras do treinador Daniel Passarella, que mandara os jogadores não usarem cabelos compridos. Apesar de tudo, o grupo fácil, com a companhia de Jamaica, Japão e Croácia foi um prato cheio para a equipe, que avançou tranqüilamente para enfrentar, e vencer, os arqui-rivais ingleses. O goleiro Carlos Roa surgiu bem nas cobranças de pênaltis para levar os argentinos às quartas-de-final, onde sucumbiram contra a Holanda, no finzinho do tempo regulamentar, num gol histórico de Dennis Bergkamp.

Na Copa de 2002 veio a maior decepção. A Argentina, de campanha impecável nas eliminatórias, apareceu como grande favorita ao título, junto à França. Ambas acabaram caindo ainda na primeira fase, e o time de Bielsa, que ainda tinha remanescentes de fracassos anteriores, como Batistuta, Caniggia e Veron, fez a torcida argentina chorar pela eliminação quando todos consideravam que aquela seria a grande chance. O grupo em que a seleção caiu também não ajudou: um dos mais difíceis da história das Copas, com Nigéria, Suécia e Inglaterra.

E agora, no Mundial da Alemanha, quando nossos vizinhos chegaram discretamente, de mansinho, e foram pouco a pouco construindo um favoritismo (chegando a encostar no Brasil nas casas de apostas), com boa vitória sobre as perigosos marfinenses, goleada sensacional de 6x0 sobre sérvios e virada no coração pra cima dos mexicanos.

Porém, novamente os argentinos sucumbiram, agora diante dos anfitriões alemães, numa partida muito disputada, em que até começaram bem, controlando o ímpeto inicial da Alemanha, que foi característico durante a competição. E ainda saíram ganhando, gol de Ayala, mas depois não souberam segurar o resultado. Pekerman efetuou substituições equivocadas e Klose empatou. A Argentina ainda teve o azar de perder o goleiro Abbondanzieri, machucado, quando o jogo ainda estava 0x0.

E nos pênaltis, o mesmo Ayala, talvez o melhor jogador argentino na Copa, desperdiçou a cobrança, como fez Cambiasso, fazendo com que a albiceleste voltasse pra casa mais cedo, de novo, ampliando o jejum de semifinais por mais quatro anos.

A verdade é que a Argentina parece estar vivendo uma “síndrome de Maradona”, como a que o Brasil viveu nas décadas seguintes à aposentadoria de Pelé, quando ficou por 24 anos sem títulos em Mundiais, de 1970 a 1994.

“Los hermanos” têm bons jogadores, bom ambiente, união, torcida que participa e incentiva, técnicos renomados, mas não conseguem chegar ao ponto máximo do futebol mundial como feito quando puderam usufruir do talento de Dieguito. Talvez seja em 2010, quando com Messi mais maduro, e melhor aproveitado, a equipe encontre um substituo à altura do antigo ídolo.

Enquanto isso o povo argentino, fanático, chora por mais uma eliminação precoce de sua seleção.


Ucrânia, zebra às avessas

A história das Copas do Mundo são marcadas por zebras. Nas competições mais recentes então, o aparecimento do mamífero listrado é mais constante ainda. Porém poucas vezes se viu uma surpresa com um futebol tão pobre quanto o da Ucrânia.

Shevchenko e seus companheiros foram a única seleção sem tradição a se infiltrar entre os oito primeiros da Copa 2006, onde todos os seis campeões mundiais participantes estiveram, mais Portugal, de Felipão.

Mas o futebol apresentado pelo país da ex-União Soviética não é digno de se figurar no rol dos oito mais de uma competição desse porte, já que em praticamente nenhum momento a Ucrânia apresentou alguma coisa, salvo no jogo contra a Arábia Saudita, quando goleou por 4x0. Mas, convenhamos, é a Arábia Saudita...

De resto, derrota acachapante sofrida para a Espanha, vitória polêmica diante da fraca Tunísia e triunfo nos pênaltis após um fraco 0x0 contra a Suíça.

O fato é que a Ucrânia chegou bem mais pela facilidade que apareceu em seu caminho do que por seus próprios méritos. É claro que os comandados de Oleg Blokhin não têm culpa disso, mas até então zebras como Turquia, Senegal, Croácia, Camarões e tantas outras mostraram bem mais futebol que os ucranianos.

Apesar de tudo, a estreante Ucrânia termina a campanha na Alemanha chegando já nas quartas-de-final, e o craque Shevchenko conseguiu deixar sua marca em redes de uma Copa do Mundo (duas vezes), mediante a outros grandes jogadores que nunca anotaram na maior competição do futebol do planeta, ou que sequer participaram dela. Valeu, Sheva!

Coluna também publicada em www.voleio.com

segunda-feira, julho 03, 2006

Brasil X França. A ressurreição do pesadelo

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Luiz Mendes Junior

(Texto escrito em 3 de julho de 2006)

Eis, amigos, a “encoberta” verdade sobre 1998! O grande segredo por trás de uma final de copa que suscitaria, pelo menos até anteontem, o imaginário de milhões de torcedores, incrédulos na legitimidade do futebol pífio apresentado por nossa seleção, convictos na existência de alguma trama escusa – possivelmente ligada à “suspeita” convulsão de Ronaldo horas antes da partida começar – que nos tivesse feito entregá-la em troca de qualquer favor idiota oferecido pela FIFA, Adidas, Nike, ou sabe-se lá quem, e, desta incapacidade de lidar com o óbvio, folclores e teorias sobre arranjos de resultados nasceram, mesmo fora do Brasil, afinal, o “grande time” que jogara “tão maravilhosamente bem” contra a Holanda nas semi-finais não podia perder como perdeu: apático, confuso, incapaz de reagir, e o problema de Ronaldo viraria desculpa para Zagallo, Bebeto e outros protagonistas do infame episódio na hora de justificar seus fracassos. Dunga, claro, seria exceção, e não hesitaria em enfatizar a relevância dos méritos adversários como elemento determinante do “desastre”. Desastre que, de algum ponto perdido no limbo esportivo, resolveu ressurgir, revivendo máculas e glórias de uma decisão até então questionada, talvez para desfazer mal-entendidos, remover nossas vendas de narcisismo ferido, castigar a empáfia de uma nação que só consegue analisar futebol olhando o próprio umbigo, repetir uma lição que nunca foi e dificilmente será aprendida, a lição de que estrelas nem sempre resolvem campeonato, de que ostentar um bom time transcende ter um plantel de craques, de que podemos possuir os melhores jogadores (será?), mas não necessariamente o melhor futebol, e de que este esporte também envolve estratégia, estudo, racionalidade, repetição, planejamento, treino, opções de jogo, prevalescência tática, física, emocional, de que “se deu certo anteontem e ontem”, não significa que ocorrerá de novo, de que se erramos e consertamos em cima da hora em alguns torneios onde triunfamos, não precisaremos errar outra vez para repetir a mesma “mística” vencedora.

Como em 1998, perdemos anteontem para um time mais inteligente, com uma estratégia superior à nossa, com um “maestro” intelectualmente mais capaz de compreender e manipular o jogo do que qualquer Kaká, Cafu ou Ronaldinho. Se capengamos e tropeçamos até a decisão de 98, sobrevivendo mais do talento individual do que de qualquer capacidade estratégica ou tática que Zagallo pudesse possuir na manga (ainda que proporcionássemos esporádicas exibições mais convincentes); em 2006, fomos além na mediocridade, e, de novo, os “azuis” de Zidane apareceram dos céus para mostrar ao Brasil que nosso suposto “melhor futebol do mundo” não pode mais sobreviver de improvisos, nomes, Marketing, brados, folclores, místicas, lampejos intuitivos e supertições, que se a alguns adversários sempre faltou o tal “brilho a mais” que fizesse diferença nos momentos decisivos, que se a essa mesma França faltara magia até anteontem e decerto faltará quando Zidane se aposentar, a nós carece inteligência, capacidade analítica, e, claro, fundamentos básicos de outras seleções onde atacantes sabem jogar sem bola e meio-campistas conseguem completar um passe longo e ligar contra-ataques sem grandes dificuldades. Isso, claro, sem mencionar nosso velho caos organizacional de bastidores futebolísticos, malogrado por ervas daninhas que usam o esporte preferido da nação como pretexto para enriquecer, vampiros da bola lucrando alto com cada transação, negociata escusa, patrocínio, saída ou entrada de jogador, mandando e desmandando dentro e fora do país, protegidos e legitimados pelo escudo dos clubes e federações que representam. O grande segredo de 98, revelado anteontem ao mais incrédulo dos incrédulos, pouco teve a ver com supostas convulsões de Ronaldo e certamente não envolveu qualquer entrega de resultado; o segredo foi uma mistura de talento e inteligência, de aliar qualidade técnica à estratégia, foi ter um amplo conhecimento sobre nós, nossos padrões, fraquezas, nossa terrível incapacidade de reagir e reorganizar quando surpreendidos e encurralados em nosso “modus-operandi”. Como em 98, o Brasil se deparou com um antídoto e não conseguiu se transformar ao longo de noventa minutos, ler a partida, utilizar opções, desenvolver alternativas sobressalentes para o caso de problemas com o “plano A”. Zagallo não tinha “planos B” em 98, e tampouco Parreira em 2006, apenas idéias vagas desenvolvidas ao longo do mundial, “pôr esse ou aquele jogador”, “um volante a mais ou um atacante a menos”. O segredo de 98 foi que apostar demais no jeitinho brasileiro pode nos fazer cair de joelhos ante a inexorabilidade racional dos europeus, especialmente se estiver ela aliada ao talento diferenciado de dois ou três jogadores, simbolizados anteontem por uma mistura de África com “Velho continente”, uma autêntica legião estrangeira pós-globalização encabeçada por general “Zizou”, seus tenente Henry e Vieira, sargentos Makelele, Thuram e Ribery, e todo um exército azul, branco e vermelho a marchar incólume sob o som da marselhesa enquanto enterrava cabeças verde-amarelas de mauricinhos e pop-stars sem comando ou qualquer noção do que ocorria em combate. Como Napoleão, Zidane fez seu exército dividir nossos apáticos representantes, isolá-los, anula-los no âmbito coletivo até torná-los quase inofensivos, atabalhoados, desesperados ante a morte anunciada. Não houve batalha, resistência ou honrarias. Fomos, como em 98, escurraçados da copa por nêmesis imbuídos em anunciar ao mundo que o futebol brasileiro era uma farsa. Se em Paris podíamos ser parcamente redimidos pela atuação satisfatória das semi-finais contra uma Holanda que nos sobrepujara por cerca de 70 minutos, perdera gols quase impossíveis, mas também nos brindara com um desgaste físico de prorrogação que ofereceria chances para mudarmos a imagem histórica de uma partida; anteontem, não houve atenuantes ou desculpas esfarrapadas, nenhum jogo anterior que nos consolasse, nenhum mistério que nos fizesse acreditar em conspirações folclóricas. Perdemos em campo e perdemos para o mundo inteiro saber da copa em que fomos um time de várzea, do mundial em que sucumbimos à arrogância da CBF, a uma preparação mal elaborada capaz de dispensar amistosos importantes para depois reclamar da falta deles quando o navio afundasse, a um grupo covarde, técnico e jogadores incapazes de contextualizar um problema e elaborar soluções ao longo de noventa minutos ou mesmo entre um jogo e outro. Parreira não perdeu porque quis jogar feio ou bonito; Parreira não adotou sua filosofia “pragmática” de 94, como tanto anunciaria a seus críticos, mas apenas a utilizou como pretexto para endossar vitórias fortuitas, quase casuais, onde estivemos a beira do gol de empate ou da derrota o tempo inteiro, gol que, por capricho e muito esforço dos pobres Dida, Juan e Lucio, não nos surpreendeu enquanto podia, deixando para aparecer justamente quando não mais fosse possível mudar, ousar ou arriscar. Se Parreira foi sensato ao colocar Juninho em campo, mesmo tendo esta escalação falhado além de minhas pobres e talvez enganosas expectativas, foi incoerente ao deixar Robinho por tanto tempo no banco, mesmo diante do óbvio, mesmo depois do gol, preferindo restabelecer seu time predileto com Adriano, talvez para calar a crítica com mais um golzinho espírita, prorrogando assim uma reação que poderia ao menos atenuar nosso vexame, garantir uma derrota digna ou até um empate em tempo normal, sucedido (Por que não?) de uma semi-final que nos possibilitasse enterrar Brasil X França de 2006 como Brasil X Inglaterra fez com Brasil X Bélgica em 2002, evitando que um erro de escalação marcasse uma era em nosso futebol, pois, em copa do mundo, o que ocorre durante 90 minutos de uma decisão ou ao longo de uma campanha, fica para sempre, acima de trocentos jogos de eliminatória, Copa das confederações ou comerciais da Nike. A humilhação de anteontem não sucedeu apenas por erros de escalação, mas coroou uma série de equívocos que permanecerão entranhados em nosso futebol, protegidos esporadicamente entre um título e outro, esquecidos a cada euforia e reavivados a cada comprovação de nosso eterno desleixo. Essa copa será marcada para nós como a copa da vergonha, a copa que humilhou nosso futebol como tanto temi ao longo de “reflexões” escritas neste blog, reflexões ingenuamente esperançosas de um milagre, mas profeticamente temerosas de um mico anunciado e confirmado. Esse time francês que nos venceu dificilmente voltará a brilhar como anteontem, pois, apesar da inesperada evolução que apresentara desde sua estréia, apesar de Henry e “Zizou”, ostenta ainda vestígios claros de mediocridade, que, mesmo diante de um oponente tão inexpressivo, mesmo diante de inquestionáveis méritos em nos sufocar por quase noventa minutos, ameaçaram reaparecer, e talvez reluzissem fortes, especialmente no pobre Barthez, se Robinho adentrasse o campo mais cedo, mas em futebol e na vida não existem “ses”, apenas a história, a irreversível história de um ovo fabergé que se estatelou e apagou o futebol brasileiro por quatro longos anos.

Perder é normal, mas não perdemos anteontem, fomos cuspidos do mundial pela porta dos fundos. E isso é vexaminoso!

Luiz Mendes Junior também escreve no blog:www.noticiasdofront3.blogspot.com

domingo, julho 02, 2006

A Copa inteira que poderia ter sido e não foi

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Daniele Pechi

Acabou! O tão esperado hexa não chegou e essa seleção brasileira foi uma das maiores decepções dessa Copa, não pela eliminação, mas pela falta de futebol.

A fase do mata-mata coloca todas as equipes em risco, mas esforço e superação foram palavras que passaram longe desse Brasil.

Deu até vergonha ver a seleção, com o time que tinha, se entregar diante da França. Depois das disputas acirradas que antecederam o nosso jogo, a Alemanha se superando para vencer a poderosa Argentina e Portugal, que com a ajuda de Ricardo, conseguiu vencer a disputa nos pênaltis contra a Inglaterra.

Eu diria que não foi uma surpresa para ninguém, pois essa eliminação estava mais do que anunciada: no decorrer de toda a participação do Brasil na Copa, esperava-se uma evolução que não aconteceu, a seleção marcou passo e só não caiu nas oitavas de final porque Gana era muito inferior tecnicamente ao Brasil. Talvez esse tenha sido o jogo de maior diferença técnica dessa fase.

Mais uma vez ficou comprovado que um bom time no papel não ganha nada! Uma equipe é muito mais que isso e pra esse Brasil faltou união, como teve a família Scolari em 2002; faltou vontade, não se via os jogadores tendo prazer de ganhar as partidas, faltou futebol, claro, o potencial que a seleção tinha, pelo menos no papel, era o maior de todos.

O grande problema é que fomos durante toda a Copa a grande “promessa”, a equipe que estouraria a qualquer momento, que na primeira fase não precisava mostrar tudo o que sabia pra passar, mas que continuou apenas sendo a promessa!

Ver o Dida tendo que dar chutão pra frente porque não tinha com quem jogar era deprimente. Jogadores tão experientes que já tinham participado de duas ou até três Copas dando as costas para fugir da responsabilidade? Esse era o Brasil que queria o hexa?

Renovar, mudar, tentar, poderia ter sido uma opção, mas as alterações feitas eram muito tardias, e óbvias. Claro que culpar somente Parreira seria uma observação inconseqüente, mas que tinha muita gente no banco querendo mostrar serviço e que não teve oportunidade, ou tempo, isso tinha!

Nem o mais brasileiro dos brasileiros nega que não foi só o Brasil quem perdeu, foi principalmente a França que ganhou, merecidamente. Zidane, que já tinha jogado muito contra a Espanha, mostrou que é gênio e vai deixar saudade pra quem teve a sorte de vê-lo jogando. Só não fez o gol, tarefa que ficou para Henry.

Afinal, em uma competição que só acontece a cada 4 anos, nada mais justo que vença a melhor seleção em campo, a que joga mais bonito! Se no futebol nem sempre isso é possível, parece que dessa vez tudo se encaminha para que tenhamos um campeão com méritos.

É, ficamos no papel, ficamos na França, ficamos na expectativa, ficamos esperando o Robinho entrar até os 30, 35 do segundo tempo... Ficamos mal-acostumados em chegar nas finais por três copas seguidas e ficamos aqui, esperando mais quatro anos por uma seleção que possa ser chamada de “melhor do mundo”.

quinta-feira, junho 29, 2006

Pedras azuis em nosso sapato

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Luiz Mendes Junior

Quis a sorte que encontrássemos novamente os franceses em uma Copa do Mundo, não na decisão, como em 98, mas nas quartas-de-final, como quando perdemos melancolicamente em 86, levando um suado empate para a disputa de pênaltis.

As equipes francesas de 1986 e 1998 lembravam nosso Brasil de algum modo, talvez mais o time de 86, também habilidoso, com um Zico de nome Platini e outros craques muito técnicos, jogando um futebol meio europeu e meio brasileiro, sem a típica cintura dura alemã, mas também sem a vocação ofensiva e o brilho da Holanda, quando campeão em 98, e sem uma solidez defensiva de italianos inspirados, quando eliminado nas semi-finais de 86. Lá e cá, com Platini ou Zidane, mandaram-nos para casa sem troféu, e pretendem repetir a façanha, prometendo resgatar lembranças de uma estranha final em que Ronaldo não foi Ronaldo por motivos ainda obscuros, e também calar quaisquer especulações remanescentes de quem permanece acreditando na hipótese de uma decisão arranjada.

Não, não é mais aquela França, mesmo com “Zizou” e outros em campo! Contudo, penso que a atual pode nos ser quase tão indigesta quanto sua antecessora, como em 97, no mesmo Saint Dennis da final, quase com a mesma escalação, num pequeno torneio quadrangular que contava também com Itália e Inglaterra, onde os “Azuis” nos arrancariam um empate que já anunciava sua capacidade de se igualar ao Brasil entre as quatro linhas, mesmo que contássemos com um inspiradíssimo Romário. A verdade é que essa geração de jogadores sempre atuou bem contra o Brasil, vencendo-nos em 98 e 2001, empatando em 97 e 2003.

De 97 para cá, jamais os derrotamos, e isso mostra o quão legítima pode ter sido a “suspeita” decisão de Paris. Sabemos, no entanto, que cada jogo é uma história, e que essa França, apesar de experiente e perigosa, não tem mais o brilho de outrora, e tampouco joga em casa. Penso que se atuarmos com um time bem montado, teremos todas as chances do mundo para proporcionar uma honrosa despedida a Zinedine Zidane, apesar das iminentes dificuldades.

Mudando agora o foco, Alemanha e Argentina disputarão, a meu ver, o jogo mais esperado da Copa, e também um duelo chave que poderá determinar os rumos do futebol alemão.

Por que digo isso?

Dois motivos interligados. Primeiramente, os alemães não vencem um clássico (leia-se “clássico” jogos contra equipes de grande tradição) desde 2000, e uma vitória (ou mesmo um triunfo nos pênaltis) contra a Argentina solidificará de vez os méritos de Klismann no comando do time; Klismann que propôs uma alteração radical na maneira da Alemanha jogar, priorizando um futebol ofensivo, ousado e vibrante, que tornasse sua seleção não apenas competitiva, mas também apreciável aos espectadores, menos sisuda, menos fria, menos “alemã”, buscando justamente modificar essa terrível associação, a imagem do país que “descobriu um modo de ganhar Copa sem precisar jogar bola”. Vencer os argentinos pode mudar permanentemente a maneira alemã de encarar futebol, e isso, para Klismann, significaria mais do que melhorar esse esporte em seu país, mas também no resto do mundo, visto que muitos olham a Alemanha como referência.

Por essas e outras, penso seriamente em torcer para eles amanhã. Conseguirei?

Luiz Mendes Junior também escreve no blog:www.noticiasdofront3.blogspot.com

quarta-feira, junho 28, 2006

As oitavas-de-final

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Renato Bosi de Magalhães

Depois de um jogo promissor entre Alemanha e Suécia, em que a seleção alemã ganhou de 2 a 0, mas poderia ter sido 4 ou 5, tal foi a superioridade do time dirigido por Klinsmann, tivemos nessas oitavas-de-final jogos entediantes.

A Argentina encontrou muitas dificuldades para passar do México. Saviola, que vinha sendo um dos destaques da seleção portenha, foi um dos piores em campo. Sorín também jogou muito mal, e graças a um golaço do Maxi Rodríguez na prorrogação, nossos vizinhos da América do Sul passaram de fase.

Inglaterra X Equador também foi duro de assistir. A equipe dirigida por Sven-Goran Eriksson, que chegou com toda pompa de melhor seleção inglesa dos últimos quarenta anos, fez mais uma péssima partida. Beckham e Joe Cole fazem nesse Mundial mais ou menos o que deles se espera. Já Gerrard e Lampard não são nem sombras daqueles grandes jogadores de Liverpool e Chelsea, respectivamente. Junto com Ronaldinho Gaúcho, são as maiores decepções até agora. Rooney se esforça, mas ainda está fora de forma devido à contusão que o tirou dos gramados por alguns meses. O gol de falta do Beckham retratou bem o que foi o jogo, já que os ingleses não conseguiram envolver os equatorianos na bola rolando.

Portugal venceu a Holanda em uma partida que teve bons lances, mas a violência dos jogadores de ambas as equipes estragou o espetáculo. Estou surpreso com as boas atuações de Figo. Ele vem se movimentando bastante. Não é aquele jogador da Inter de Milão e do Real Madrid, que ficava parado na ponta direita só alçando bola na área. Já a Itália passou da Austrália no seu famoso futebol de resultados. Os australianos reclamaram do pênalti, que levou a vitória aos italianos. Mas é bom lembrar que a Austrália começou a atacar a azzurra depois de uma expulsão injusta de Materazzi.

Suíça e Ucrânia fizeram um dos piores jogos dessa Copa. As duas bolas na trave no primeiro tempo resumem o jogo. E esse “espetáculo” só poderia mesmo ir aos pênaltis. E a Suíça foi eliminada sem tomar nenhum gol nesse Mundial.

O Brasil ganhou de 3 a 0 de Gana, mas o time africano teve a posse de bola na maioria do tempo. A sorte dos brasileiros é que, assim como os australianos, os ganeses têm uma pontaria de dar dó. Já a França levou a melhor sobre a Espanha. Como já havia acontecido contra Togo, Vieira foi “o cara” do jogo. Deu um belo lançamento para Ribery no primeiro gol e ele próprio fez o segundo. Zidane ainda fez o terceiro. O meia ex-Real Madrid ainda fez outras boas jogadas, principalmente num lançamento primoroso para Malouda, que não conseguiu uma boa finalização.

Eu achava que a Copa começaria de verdade nas oitavas, mas pelos jogos chatos que tivemos e os confrontos que se formaram para a próxima fase (principalmente Brasil x França e Alemanha x Argentina), o Mundial da Alemanha começa verdadeiramente nas quartas-de-final.

terça-feira, junho 27, 2006

A tradicional surpresa africana...

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Henrique Moretti

Desde 1986 o continente africano leva ao menos um representante para a segunda fase da Copa do Mundo. Marrocos, na Copa do México, foi a primeira seleção oriunda da “Mãe-África” a conseguir tal feito, que acabou repetido por Camarões, de Roger Milla, em 1990, na Itália; pela Nigéria, de Amokachi, em 1994, nos EUA, e de West, na França, em 1998; além do surpreendente Senegal, de Diouf, na Copa da Coréia e do Japão, há quatro anos.


Porém, apesar do retrospecto positivo das equipes do Continente Negro nos últimos tempos, não se esperava, dos menos aos mais entendidos, que dessa vez um africano conseguisse passar da primeira fase do Mundial alemão. Pois Gana conseguiu.


A seleção de Gana provou que nunca se deve duvidar do futebol da África, e, contrariando os prognósticos, obteve a classificação no grupo que se mostrou no mais difícil da Copa, o E. Na verdade, a qualidade dos adversários era o maior obstáculo para Gana, e, isso, particularmente, fez com que o colunista não apostasse nas “Estrelas Negras”.


Porque potencial, muitos sabiam que eles tinham. A equipe, conhecida por ser uma potência nas categorias de base - foi duas vezes campeã mundial Sub-17 e medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992 -, teve uma campanha impecável nas Eliminatórias, deixando a África do Sul, anfitriã do Mundial de 2010, para trás com larga folga, e apenas 4 bolas chegaram às redes ganesas em toda a fase preliminar. E essa fortaleza na defesa é que diferencia Gana das demais seleções africanas e, conseqüentemente, foi uma das principais razões para que a equipe levasse a melhor sobre EUA e República Tcheca, só sendo derrotada pela tricampeã mundial Itália.


Se é assim, é bom o Brasil tomar cuidado na etapa de oitavas de finais, quando canarinhos e ganeses ficarão frente a frente em Dortmund, no próximo dia 27, porque o clichê de que as seleções africanas têm alegria, muita ginga, dribles, porém inocência na defesa e falta de disciplina tática, cai por terra quando o assunto é a seleção de Essien e cia.


O time é treinado pelo sérvio Ratomir Djukovic e apresenta um zagueiraço, John Mensah, que desde a CAN 2006 (em que a equipe, desfalcada, não obteve nem sequer vaga à segunda fase) vem se destacando. Seu parceiro seria o conhecido Samuel Kuffour, com passagem pelo Bayern e hoje na Roma. Seria porque, ao falhar bisonhamente na estréia diante da Itália, Kuffour foi sacado do time sem dó por Djukovic, dando lugar a Mohammed. A fortaleza continua no meio-campo, com verdadeiros “tanques de guerra”. Essien, Muntari e Appiah são jogadores de muita força física e que aliam marcação firme com boas saídas ao ataque, que parecia (e se confirmou) como a principal deficiência do time, aparecendo Amoah e Gyan, que não são maus jogadores – longe disso -, porém a quantidade de chances de gols que desperdiçam impressiona.


E é com esse time que os comandados de Djukovic tentarão surpreender os pentacampeões brasileiros. E eles levam toda a África consigo, já que Costa do Marfim, Tunísia, Togo e Angola não foram capazes de avançar. O único (porém não menos relevante) contra-tempo para a partida decisiva de Dortmund é o desfalque de Essien, infeliz ao tomar o segundo cartão amarelo logo aos 4 minutos do jogo contra os EUA.



Zidane uma vez mais


Foi duro. Foi difícil. Foi sofrido. Mas a França está nas oitavas de final da Copa do Mundo 2006. A partida contra Togo, quando todos pensavam que fosse ser fácil, tomou rumos desfavoráveis aos franceses, que além de jogarem pela classificação depois do vexame de 2002 tentavam manter a carreira de Zidane ao menos até as oitavas de finais.


O camisa 10 e capitão dos “Blues”, que anunciou sua aposentadoria ao término da Copa, estava suspenso para a partida, após receber dois cartões amarelos nas duas primeiras partidas, contra Suíça e Coréia e, no dia de seu 34º aniversário, restava-lhe apenas torcer para os companheiros prolongarem a vida francesa no Mundial.


Porém Togo parecia estar disposto a encerrar mais cedo a carreira do brilhante jogador, e apesar da pressão francesa no primeiro tempo, o gol acabou não saindo, com o desespero já tomando conta do time treinado por Raymond Domenech. Mas no segundo tempo Vieira e Henry furaram o bloqueio do bom goleiro Agassa e obtiveram a classificação para enfrentar a Espanha nas oitavas.


Outro destaque da equipe foi David Trezeguet, que deve ter finalmente convencido o teimoso Domenech que sua presença entre os 11 titulares é indispensável.


Assim, no aniversário de Zidane os agraciados com presente foram os fãs do futebol, que têm a oportunidade de ver o craque em campo por mais uma vez. Mas nada impede os franceses de torcerem por mais 3 jogos com Zizou nos gramados.


Coluna também publicada em www.voleio.com

domingo, junho 25, 2006

Enfim, a hora da verdade chegou

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Luiz Mendes Junior

(Parte 1, escrita em 24/06 as 11 da manhã, antes de Alemanha x Suécia)


Esta Copa começou muito boa, e parece ter aliviado seu ritmo na terceira rodada em virtude da classificação prematura de alguns favoritos. República Tcheca e Itália foram exceções, visto que ainda precisavam brigar pela vaga no último jogo antes das oitavas. Outros participantes, já eliminados, preocuparam-se em realizar honrosas despedidas, como no caso da Costa do Marfim, que apesar de se revelar grande surpresa no mundial, apresentando um futebol tecnicamente superior ao de times como Equador e Gana, viu-se eliminada na fase preliminar, e por razões óbvias. Cair num grupo com Holanda e Argentina não lhe deu muita chance. Fez excelentes partidas, mas não teve sorte suficiente e cometeu pecados inadmissíveis nestes dois confrontos, pecados que Gana e Equador também praticaram, mas em chaves e jogos onde era permitido.

Os alemães de Klismann evoluíram substancialmente quando comparados a si mesmos meses atrás perdendo feio para Estados Unidos e Itália. Demonstraram fragilidade na estréia, mas se solidificaram defensivamente em seguida, evidenciando também uma empolgação e um volume de jogo incomum ao país em copas recentes. Sem dúvida, jogar em casa também pesa bastante nesse contexto, e a equação “jogadores jovens, aplicados e empenhados + filosofia ofensivista de Klismann + fator campo + adversários medianos ou fracos até agora” vem resultando numa Alemanha empolgante que contradiz sua imagem de time frio e calculista. Frios talvez sejam os suecos ante a problemática de encará-los como donos do espetáculo. Alemanha e Suécia duelarão uma hora após eu escrever esta coluna e tal confronto representará um teste definitivo para a torcida germânica saber se realmente pode sonhar com o título. Seus jovens representantes podem ter melhorado muito desde a preparação, mas ainda não provaram força contra oponentes mais duros, visto que pegaram uma chave tranqüila. A seleção equatoriana surpreendeu vagamente com duas largas vitórias, mas, além de jogar sua terceira partida desfalcada, está longe de ter valido aos alemães como um grande teste. Caísse num grupo mais complicado, decerto estaria fazendo as malas agora. Claro que ver os sul-americanos nas quartas após vencerem os ingleses não é impossível, mas bastante improvável, mesmo com os defeitos apresentados pelo “English Team”, que ainda não encantou nessa copa.

O único grupo a classificar uma equipe considerada zebra antes do início do torneio foi a chave E. Gana começou frenética contra os italianos, mas também errando em conclusões e na marcação. Vacilou semelhantemente contra a República Tcheca, perdendo gols impossíveis, mas sua maciça prevalescência técnica, aliada à superioridade numérica em virtude de expulsão, garantiu um triunfo que a colocaria diante do Brasil nas oitavas. Seus jogadores são rápidos como manda a tradição africana em copas e destoam do estereótipo “alegres, desleixados e dribladores” característico de Camarões em 90 e Nigéria em 94, preferindo um estilo de muita força física, pegada, toques rápidos, marcação na saída de bola e numero excessivo de faltas. Possui média de dribles baixa quando comparada à Costa do Marfim e Brasil. 7,7 dribles por jogo, segundo o instituto Datafolha, contra 25,3 do Brasil e 29,3 da Costa do Marfim. Sua média de faltas é a maior da copa. 25 por jogo contra 11,7 dos brasileiros.

Portugal e Holanda prometem um duelo menos físico e de técnica apurada, enquanto a França, que dificilmente brilhará nessa copa (embora possa apresentar um ataque melhor com Trezeguet em campo), terá sua defesa duramente testada pela primeira vez. Ostenta um time limitadíssimo que, ao menos, não parece frágil. O favoritismo, todavia, será da fúria.

Brasil e Japão realizaram um interessante duelo em Dortmund. Parreira soube aproveitar sua última chance de testar jogadores que poderiam mudar o caráter sonolento do time. Colocou em campo uma esquadra leve, veloz e muito ofensiva que trouxe esperanças à torcida e mais respeito dos adversários. Insistir com Ronaldo foi e ainda é uma aposta perigosa. O fenômeno vem ganhando ritmo a cada partida, mas ainda atrapalha o ataque quando trava certas triangulações e, nas bolas altas, não tem metade da eficiência de Adriano, apesar do gol de cabeça que marcou. De “causa perdida”, viu-se promovido à “esperança”, e isso nos deixa felizes. Parreira ignorou o óbvio, mas pode sair triunfante assim mesmo, provando o poder de suas “loucas” convicções. Com Robinho jogando, ainda prefiro Adriano como homem de referência. Contudo, manter os demais reservas na equipe seria insensato. Gana não tem tradição, mas é um time de muita força física que pressionará nossa retaguarda e exigirá empenho e eficiência nas divididas. Brasil X Gana promete ser brigado, corrido, com algum espaço para jogar, contra-ataques e uma pressão enorme contra nós nos primeiros minutos, como os africanos têm feito sempre. Somos, claro, favoritos, e seríamos mais se a seleção estivesse devidamente ajeitada no tempo certo. Sucesso contra os ganeses será quase uma garantia de bom futebol contra os espanhóis, caso estes triunfem sobre a França e nos peguem na fase seguinte, pois praticam um estilo vagamente próximo ao de Gana.

Estranha foi a tímida comemoração de certos jogadores australianos e de Gus Hiddink com a vaga obtida após um jogo marcado pela mais estapafúrdia arbitragem da copa até agora, pois pareciam menos contentes com a classificação do que decepcionados por não serem líderes do grupo, já que, pensam, poderiam ter vencido o Brasil com um pouco mais de sorte, e, assim, evitar a “Azzurra”, super favorita contra eles. Diferentemente de certos selecionados tradicionais, ganeses e australianos não parecem muito humildes ante os penta-campeões. De certo, é saber que a copa entrará num desenlace interessante com grandes seleções se cruzando em embates dramáticos e épicos até o grande campeão ser decretado. O nível técnico deste mundial deve crescer e muito a partir de agora.

(Parte 2, escrita em 24/06 as 2 da tarde, antes de Argentina x México)

Vitória categórica da Alemanha ante os suecos e notícia devastadora para o Brasil. Copa do mundo é assim. Desvios brutais, surpresas e estórias diferentes a cada rodada.

Jogo a jogo, os alemães mostram saber aproveitar seu mando de campo para acuar adversários e, com 15 minutos passados, já complicaram a vida dos suecos com dois gols. Torcerei para a Argentina ante os mexicanos porque os donos do espetáculo precisam de um freio nesse mundial, e, penso, os favoritos portenhos serão seu maior obstáculo até a decisão. Depois disso, só com muita reza e macumba para segurá-los, por mais limitados que possam ser. Um time grande jogando em casa e bem preparado é sempre um problema, e, não por acaso, à exceção do Brasil, todos os campeões mundiais possuem ao menos um título no próprio solo.

Falando em Brasil, um possível desastre pode provocar desfechos melancólicos ao sonho do Hexa. Robinho não é a grande estrela do time, mas sua presença em campo vale como elo propulsor importantíssimo para fazer o tal “quadrado” funcionar. Se sua recente dor na coxa for contusão séria, Parreira terá três opções para administrar uma possível sobrevida sem ele. Abolir o quarteto e escalar Juninho no lugar de Adriano, rezando para não precisar colocar coringas ao longo da partida, visto que não possuirá cartas adicionais na manga; isso até pode melhorar a seleção, solidificando o meio-de-campo e diminuindo a fragilidade demonstrada até aqui, mas talvez também prejudique o dinamismo das subidas ao ataque, descaracterizando aquele futebol alegre e dinâmico que muita gente quer ver do Brasil. Parreira também pode testar seu “quadrado” com Fred, buscando manter as características da equipe que deseja montar, ou fazer o mais provável, voltando à escalação original com dois atacantes “pesados”, atitude que decerto representaria um retrocesso fatal em termos de brilho ofensivo e eficiência.

Que os Deuses futebolísticos nos sejam benevolentes e preservem Robinho, para que, pelo menos, mostremos algo próximo a nosso real potencial nessa copa! Se já não bastassem as trapalhadas da CBF e do próprio treinador, o destino parece também estar indisposto a colaborar conosco. Copa é assim mesmo, vide ausências de Maradona em 94 (dopping) e Zidane em 2002 (contusão). Felizmente vencemos os alemães no Japão, e eles só poderão ser tetra em 2006, para desespero do reserva mais bem-humorado da copa.

Luiz Mendes Junior também escreve no blog:www.noticiasdofront3.blogspot.com

sexta-feira, junho 23, 2006

Coisas curiosas do futebol

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Ricardo Stabolito Junior

O Brasil entra em todos os torneios de futebol que disputa com um time, no mínimo, competitivo. Isso é muito bom, afinal, todos gostam de torcer por um time forte e campeão. Mas pensem: e se o Brasil não fosse a potência no futebol que é, se ela fosse uma mera coadjuvante na Copa do Mundo?

Neste ano, em vista da seleção brasileira ter a obrigação de passar pela primeira fase com o time que tem, resolvi eleger um outro time para quem torceria na primeira fase do Mundial. Mas não seria um time qualquer – seria um com pouca tradição no futebol. E não seria uma torcida de momento, assistiria com atenção a todos os jogos dessa seleção, assim como faria com a do Brasil.

Minha escolha não foi difícil. Lembrando dos tempos em que ainda jogava Fifa 97 no “jurássico” console Mega-Drive, escolhi a estreante Trinidad e Tobago. Quando organizava Copas do Mundo no jogo, sempre pegava a seleção caribenha. Lembrei-me com carinho de craques como Yorke (que na época jogava no Manchester United – fato no mínimo estranho para mim naquela época), Wise, Latapy e John. Detalhe: só os conhecia por sobrenome, pois o jogo só informava a inicial do primeiro nome do jogador.

A conquista da vaga por Trinidad já havia sido muito sofrida. Após conseguir o quarto lugar no hexagonal final das eliminatórias da Concacaf, passando a Guatemala nas últimas rodadas, conseguiu uma vaga na repescagem contra o quinto colocado da Ásia – o Bahrein. No primeiro jogo, realizado em Trinidad, um “péssimo” empate de 1 a 1, o que concedia ao time asiático a vaga caso empatasse sem gols o segundo jogo. E, com um gol do grandalhão Lawrence no segundo jogo, conseguiu a vaga inédita para a Copa do Mundo.

A opinião entre os especialistas era unânime: se Trinidad e Tobago fizer pontos nessa Copa, será uma grande surpresa. No seu grupo estavam uma das favoritas ao título do Mundial (Inglaterra), um dos melhores “coadjuvantes” (Suécia) e uma seleção que já não era mais surpresa em Mundiais (Paraguai).

Quase em todos os dias da primeira fase perdi parte do jogo das dez da manhã, só assisti inteiro ao jogo de estréia de Trinidad e Tobago. Abrindo o segundo dia de Mundial, enfrentou a Suécia e algumas coisas já me tocaram profundamente. Tirando Yorke, era a primeira vez que vi as faces de muitos dos jogadores que me fizeram campeões no vídeo-game. Muitos deles já eram veteranos – e como não seriam – já que em 97 já integravam a seleção nacional.

Quando o jogo começou, entendi que sofreria muito com a seleção caribenha. O time não tinha ataque, a ponto do grande ídolo e atacante Dwight Yorke jogar praticamente como volante. Mesmo que com falta de competência, a Suécia atacou o jogo inteiro. Mas, com um homem a menos, o time de Trinidad e Tobago se segurava contando com a barreira Shaka Hislop no gol – único jogador do elenco que jogava na primeira divisão da Inglaterra. E eu vibrava, como raramente em um jogo do Brasil, a cada vez que aquele selecionado de jogadores de terceira, quarta divisão da Inglaterra, barrava o ataque dos consagrados Ibrahimovic, Larsson e Ljungberg.

Na jogada de maior perigo da partida, o atacante Glenn (que joga nos Estados Unidos), num dos raros chutões da zaga trinitina que gerou um contra-ataque, colocou a bola na trave do gol sueco. Nesse momento, quase explodi. E, de resto, só ataques cada vez mais desesperados da Suécia.

Quando estava nos descontos do segundo tempo, me dei conta que estava levantado, apreensivo e com minhas mãos entrelaçadas, implorando pelo apito final do juiz. E quando ele o fez, estourei em alegria. Todos os jogadores indo abraçar o heróico goleiro de 37 anos, Hislop, que garantiu o empate com grandes defesas. Todos estavam rindo e muitos felizes sabendo que fizeram o melhor que podiam e conseguiram algo quase inacreditável. Na torcida, todos agitavam bandeiras e gritavam com orgulho o nome do país e dos jogadores.

Depois do jogo, fiz questão de ver todos os comentaristas falarem que estavam errados sobre Trinidad e Tobago, que ele não seria um saco de pancadas e era de uma resistência admirável. Ciente do seu papel na Copa, o time soube valorizar o que podia fazer e o fez com grande excelência.

Fiquei extremamente feliz, até mais do que com a vitória do Brasil sobre o Japão “jogando bonito”. Fiquei feliz porque, naquele dia, os meus heróis do vídeo-game se tornaram heróis para uma nação inteira e todos puderam ver o potencial da seleção caribenha que vi no antigo Fifa 97, já há muito tempo atrás.

Contra a Inglaterra, o time novamente mostrou resistência sobrenatural segurando o empate por 80 minutos. No final, acabou sendo vazada num gol irregular do grandalhão Peter Crouch, favorecido com uma das faltas mais bizarras que já vi – ele puxou o longo cabelo do volante Sancho, o impedindo de saltar – e por um chute de fora da área de Gerrard. Contra o Paraguai, a defesa ruiu ainda no primeiro tempo com um infeliz gol contra do mesmo Sancho.

Após o empate contra os suecos, percebi algo importante: o futebol é algo bem curioso. Não que já não soubesse isso, mas consegui percebê-lo mais do que nunca. É muito curioso pensarmos como nesse esporte um mísero empate (como o de Trinidad contra a Suécia) pode ser mais emocionante e, até mesmo, importante do que uma taxativa vitória (como a do Brasil contra o Japão). Porque, para mim, ele foi.

quinta-feira, junho 22, 2006

Impressões

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Renato Bosi de Magalhães

Começo pela Argentina, óbvio. O futebol que a seleção portenha vem apresentando é de encher os olhos. A poucos dias da Copa, o técnico José Pekerman ainda vinha procurando o time ideal. Agora tem um time talentoso, pronto para buscar o terceiro título da história.

A respeito do Brasil, não esperava partidas tão burocráticas e confesso que não vejo uma seleção sensacional, capaz de golear quem vier pela frente. Parreira é o técnico, que diz “show é ganhar a Copa” e, segundo, porque a seleção que encantou naquele jogo contra a Argentina, na Copa das Confederações, era outra. Jogavam Cicinho, Gilberto e Robinho. São jogadores de uma movimentação e um potencial ofensivo muito maior do que Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo.

A Itália, do apagado Totti e do aceso Pirlo, não me surpreende, nem me desaponta. Pode tanto ser eliminada na primeira fase (se perder para a República Tcheca), quanto ser campeã, com seu ferrolho defensivo. Não nos esqueçamos que a Itália campeã de 82 empatou seus três jogos na primeira fase.

A Espanha é a seleção que proporcionou a maior surpresa, ao golear a boa Ucrânia por 4 a 0. Ela possui um meio-campo que alia a marcação e o bom toque de bola, e tem na frente Luis García e o “matador” Fernando Torres, enquanto para a Alemanha eu não dava nada antes do início do Mundial. Mas, com o apoio da torcida, jogando com sua conhecida disciplina tática, e contando com a boa fase de Lahm e Schweinsteiger, além de Ballack e dos gols de Klose, é uma forte candidata ao título.

A França é a que mais decepciona. Com os bons marcadores Makelele e Vieira na contenção, e contando lá na frente com Zidane e Henry, contava com um melhor futebol. E Trezeguet não jogar de titular é brincadeira.

Holanda e Portugal são seleções organizadas, possuem jogadores capazes de decidir uma partida, além de excelentes técnicos, mas não enxergo nelas potencial para serem campeãs. As equipes da Ásia não evoluíram. Esperava mais principalmente do Japão e do Irã. Já das que representam a África, gostei. Costa do Marfim apresentou um futebol alegre, vistoso. Deu azar ao cair no “grupo da morte”. Gana, que basta vencer os Estados Unidos para se classificar, também foi bem. Já de Tunísia, Angola e Togo, não esperava muita coisa. E, se não apresentaram um futebol de encher os olhos, mostraram alguns bons jogadores. Destaco a dupla de ataque togolês, formada por Kader e Adebayor.

Estou um pouco decepcionado com esse início de Copa. Quem sabe daqui para frente melhora.

quarta-feira, junho 21, 2006

A fantástica Espanha

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Pedro Galindo

Durante essas últimas semanas, tentei ao máximo escapar da faculdade e de todas as outras obrigações para assistir à tão aguardada Copa do Mundo. Até agora não tive tanto tempo para, realmente, acompanhar todos os jogos, observar táticas e jogadores, mas confesso que fiquei impressionado com a “Fúria”.

A seleção treinada por Luís Aragonés tem todos os pré-requisitos de uma seleção forte e consistente: goleiro altamente confiável – talvez até o melhor do mundo –, dupla de zaga de bons valores individuais, formada por Carles Puyol, destaque do bi-campeão espanhol Barcelona, e Pablo, do Atlético de Madrid. Tem também um meio-campo que pode ser considerado completo, com Alonso, Senna, Xavi e Luis García – um dos mistérios desse 4-3-3. No ataque, duas promessas da Liga Espanhola: David Villa, atacante goleador do Valencia, e Fernando Torres, do Atlético de Madrid, uma das maiores revelações dos últimos tempos, na Espanha, e não menos goleador que seu parceiro de ataque. A equipe conta ainda com excelentes jogadores no banco, como os goleiros Cañizares e Reina, os meias Cesc Fábregas, Joaquín, Albelda e Reyes, e o maior goleador da seleção espanhola em todos os tempos, o atacante merengue Raúl González. Juntos, todos esses jogadores vêm conseguindo excelentes resultados há um bom tempo, e apareceram nessa primeira fase como uma das equipes favoritas ao título mundial.

Apesar de não terem caído num grupo muito complicado, os espanhóis conseguiram um bom resultado logo no primeiro jogo, contra o adversário que todos diziam ser o mais difícil da chave: contrariando a todos que previam um jogo complicadíssimo, a “Fúria” venceu implacavelmente a Ucrânia de Schevchenko por 4x0, já mostrando seu excelente estilo de jogo e seu toque de bola consistente. No segundo jogo, uma surpresa: contra a supostamente fraca Tunísia, os espanhóis tomaram um gol logo no começo da partida, o que tornou um jogo que tinha tudo pra ser fácil em uma partida dificílima. Então, com um toque de bola consciente e uma pressão tranqüila, a equipe conseguiu a virada e terminou vencendo por 3x1, com gols de Fernando Torres (2 vezes) e Raúl, que não marcava havia muito tempo. Agora, eles têm pela frente a fraquíssima Arábia Saudita, e têm tudo para dar um verdadeiro chocolate no time comandado pelo brasileiro Marcos Paquetá.

O que faz desse time da Espanha tão completo é o mesmo fator que, supostamente, tornaria a seleção inglesa, de quem se esperava tanto, tão completa quanto: o meio-campo polivalente. Ambas as seleções tem meias que sabem marcar e armar, chutar de longe e fazer lançamentos. Essa é a principal característica de jogadores como Cesc Fábregas, Gerrard, Xavi e Lampard, entre outros. O diferencial entre as duas equipes está apenas no estilo de jogo: enquanto a seleção do país peninsular se destaca pelo toque de bola diferenciado e pelo estilo de jogo mais cadenciado e paciente, o English Team joga o tempo todo se aproveitando dos lançamentos precisos de David Beckham e Steven Gerrard, que buscam quase sempre a cabeça do grandalhão Peter Crouch. O potencial dos excelentes atacantes Michael Owen e Wayne Rooney quase não é aproveitado, tornando a equipe dependente de apenas um tipo de jogada. É por isso que a seleção espanhola vem dando espetáculo e convencendo a todos, enquanto a equipe da Rainha Elizabeth se classificou em primeira de seu grupo, mas ainda não convenceu de fato.

A seleção do Rei Juan Carlos ainda conta com uma excelente invenção tática de Aragonés: uma espécie de 4-3-3, que pode se contrair a um 4-4-2 a qualquer momento. Isso se explica pelo fato de o meia Luís García, do Liverpool, jogar quase na ponta-esquerda, apesar de ser considerado meia-ofensivo. Portanto, ele fica variando de posição durante o jogo inteiro, tanto formando o meio com os outros três, quanto se juntando a Torres e Villa no ataque.

A tabela das oitavas de final também não previa muitas dificuldades para a seleção espanhola, mas terminou por lhes trazer um obstáculo dificílimo, logo de cara: tudo indica que eles enfrentarão a França, que apesar da má fase, sempre é um adversário a ser temido. Mas é assim que as seleções que se dizem favoritas têm que provar seu valor, eliminando as outras candidatas ao título. Potencial, todos sabemos que a Seleção Espanhola tem de sobra, resta saber se eles vão ter fôlego e grandeza suficiente para chegar até o fim.

terça-feira, junho 20, 2006

Time que desce quadrado

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Luiz Mendes Junior

Terminado este segundo desafio do selecionado brasileiro, prontificam-se “entendidos” de plantão – incluindo quem vos escreve – a diagnosticar prós e contras da partida, emitir veredictos, sugestões, e, claro, criticar o que “deve” ser criticado.

Indignações, ufanismos, homenagens, premeditações, alertas e pedidos desesperados a parte, confesso sentir um misto de esperança e desespero, de Copa das Confederações e Olimpíadas de Atlanta, embora deva confessar a prevalescência do segundo presságio ante o primeiro. Vitórias tranqüilizam, mas performances atabalhoadas ainda preocupam, e também os sinais de que Parreira permanecerá desafiando a lógica e ignorando o óbvio. Até quando?

Ronaldo esteve melhor do que na estréia, e isso é consenso na imprensa esportiva, mas, se uns globais aqui e ali preferem focar atenções na “micro-evolução” do fenômeno e demais pontos positivos da performance de anteontem, mantendo a visão predominantemente ufanista da emissora, outros permanecem céticos, quer insistindo nos óbvios defeitos do time, quer apelando ao “espírito do futebol-arte de 82”, quer insistindo em análises individuais de jogadores e esquecendo um pouco o âmbito coletivo.

Freqüentemente assisto ao badalado debate “Linha de Passe - Mesa Redonda” na ESPN Brasil, que conta com alguns dos mais bem vistos comentaristas futebolísticos da mídia nacional, incluindo Juca Kfouri, Fernando Calazans e o “expert” Paulo Vinícius Coelho. Sou fã do programa e de alguns participantes, mas admito discordar de inúmeros pontos por eles levantados. Penso que, tal qual nossos “entendidos” da CBF, da comissão técnica e futebol brasileiro em geral, também estes ocasionalmente contribuem com certos vícios opinativos não mais condizentes com o futebol como ele é jogado hoje, mas isto é assunto para outra resenha.

Retomando o programa em si, Juca Kfouri questionou anteontem a pertinência das opiniões “indulgentes” que havia emitido a quase todos os jogadores brasileiros após perceber ter também depreciado o time no âmbito conjunto, mas seu paradoxo era absolutamente sensato e pertinente, pois possuímos uma equipe que mal se entende em campo, com problemas táticos crônicos, e que consegue contrabalançar tais defeitos com marcantes esforços individuais. A “defesa”, tão elogiada por todos, pode até ir bem quando analisada individualmente, embora, num contexto geral, permaneça fraca, porque “lá atrás” os jogadores precisam se desbaratar para compensar os problemas defensivos (e ofensivos também) gerados “na frente” com a falta de movimentação e de combate. Por melhor que atuem Lúcio, Juan, Zé Roberto e companhia, estarão sempre eles no “fio da navalha”, precisando fazer mil estripulias – vide os monumentais carrinhos de Zé Roberto – para compensar uma flagrante fragilidade da seleção, evidenciada tão logo nossos dois primeiros adversários precisaram atacar depois que abrimos o marcador.

Outro ponto dissidente entre eu e os integrantes da mesa está na análise da atitude aparentemente pragmática de Parreira em relação aos resultados obtidos até agora. Trajano, Kfouri e Calazans enfatizam e criticam os discursos do técnico quando este enaltece a importância de vencer e marcar pontos em detrimento de tudo, como em 1994. Todavia, diferentemente da mesa, penso que Parreira não está repetindo sua filosofia “um a zero” de 1994 em 2006, mas apenas usando esse discurso para encobrir a ineficácia de não conseguir o que deseja desse time. Apostar no quarteto em si já deixa clara uma estratégia predominantemente ofensiva de velocidade e triangulações em vez de investir num meio-de-campo sólido e menos dinâmico como o de 1994, que marcava bem com seus quatro integrantes e contava com dois volantes pouco ofensivos, embora um deles contribuísse constantemente com passes longos a Bebeto e Romário. O meio-de-campo atual tem apenas um volante fixo e seus dois “meias-atacantes”, apesar de se esforçarem em contribuir defensivamente, são bem menos eficazes nesse quesito do que eram Raí e Zinho (ou Zinho e Mazinho).

Não me desagradaria ver Parreira adotando uma filosofia conservadora como a de 1994, mesmo que isso diminuísse o poder do ataque e o “show” proporcionado, mas meu desespero maior está em vê-lo perdido entre o que diz fazer mas não faz, e o que quer fazer e não consegue. Se Parreira pretende apostar na leveza e virtuosidade ofensiva do time, que tire então Ronaldo e facilite a vida de Adriano, colocando Robinho em campo. Não é minha escalação preferida, mas é inegável o fato dela ao menos fazer este quarteto funcionar devidamente e a equipe jogar mais ou menos como Parreira deseja, arriscando-se além da conta, mas também criando várias oportunidades de gol.

Contra uma Argentina, isso pode ser suicídio, contra a Croácia, foi perigoso, mas contra a Austrália, valeria a pena se Robinho começasse atuando. Como diria Paulo Vinícius Coelho, durante a transmissão do jogo, a diferença do time com Robinho em campo é flagrante, embora Parreira permaneça insistindo no “Fenômeno”. Acho impossível que apenas ele não perceba a “ululância” da questão. Mas Robinho pode também ter contribuído com sua permanência no banco ao tomar um cartão amarelo gratuito. Por quê? Porque nosso próximo confronto seria uma oportunidade perfeita para testar o rei das pedaladas por noventa minutos e também o quarteto em sua melhor formação. Pendurado, Robinho talvez fique de fora, pois imagino que Parreira o considere, mesmo na reserva, mais importante do que Ronaldo, que também tem um amarelo, mas deve entrar em campo contra o Japão.

Ruim é saber que o primeiro teste do “quadrado mágico” em sua melhor formação desde a final da Copa das Confederações pode ser um batismo de fogo contra Itália ou República Tcheca. Lembremos que este selecionado canarinho só fez dois grandes clássicos com seu quarteto (ou três, se considerarmos a Alemanha da Copa das Confederações), ambos contra a Argentina, e este quadrado falhou feio na primeira oportunidade enquanto funcionou razoavelmente bem na segunda, pelo menos por um tempo e meio, e com o adversário desfalcado de 6 titulares. Com Ronaldo no lugar de Robinho, o quarteto jamais encarou um clássico.

Antes de fechar a resenha de hoje, gostaria de insinuar algo provavelmente inverídico a partir de uma pergunta que até pode valer boas reflexões e futuras observações. Alguém por acaso reparou que os maiores destaques desta seleção em termos de empenho e dedicação advém justamente de jogadores que não eram titulares em 2002?

Luiz Mendes Junior também escreve no blog:www.noticiasdofront3.blogspot.com